“Você acredita que o medo pode deixar as pessoas
mais egoístas?” –
Carmem, personagem de Leandra Leal no filme Estamos juntos.
O medo é uma sensação que proporciona um estado de alerta
demonstrado pelo receio de fazer alguma coisa, geralmente por se sentir
ameaçado, tanto fisicamente como psicologicamente.
Egoísmo ( ego+ ísmo) é o hábito ou a atitude de uma pessoa colocar seus interesses, opiniões, desejos, necessidades em primeiro lugar, em detrimento (ou não) do ambiente e das demais pessoas com que se relaciona.
Assisti a um filme interessante, Estamos
Juntos, com a Leandra Leal, o filme fala sobre uma jovem médica residente de
cirurgia que mora sozinha em São paulo, e tem poucos amigos, além de uma
relação um tanto quanto distante destes. Ela acredita que tem uma vida estável
e é, até certo ponto, equilibrada emocionalmente, até descobrir que está com um
tumor no cérebro. Isso passa a atrapalhar sua vida profissional e ela é
afastada do hospital onde trabalha.
Não vou falar do enredo inteiro do filme, mas
o recomendo. O que me chamou atenção nessa frase do início do texto , sobre
egoísmo, foi que eu não tinha associado o isolamento da personagem com egoísmo.
Eu considerei dificuldade de relacionamento, falta de tempo por causa da
profissão, entre outras coisas mas não pensei que o egoísmo está por trás
disso, e muito menos que o medo nos torna pessoas mais egoístas.
Medo de que? Medo de ser
comparado,criticado ou não ser aceito. Medo de se expressar e não ser
compreendido, ou pior, de parecer tolo e ser feito de idiota. Medo de apostar
nossas fichas numa relação, correndo o risco de se apegar a alguém que
vive muito bem sem nossa presença. Medo de mostrar nossos objetivos e planos e
depois não conseguir alcançá-los, ilustrando o fracasso que muitos nos
desejariam.
Podemos caracterizar como egoísmo a decisão
de se manter distante, sem o risco de ser criticado, julgado ou magoado, sem
promessas e sem frustrações?
Como dizia Schopenhauer querer é
essencialmente sofrer, e ter medo de sofrer, ou cansar-se de passar repetidas
vezes por situações que vão degradando nossa fé nas pessoas pode nos fazer agir
dessa forma sim. Não por maldade, não com a intenção de ser superior aos outros
ou fazê-los sofrer, mas como um mecanismo de defesa. Em alguns casos a
confirmação da morte de nossa fé nos outros, em outros uma última tentativa de
salvar nossa alma da perda total da esperança.
Abençoados sejam aqueles que têm fé nos
outros e na vida, que acreditam no romantismo e não se fecharam para o mundo
após as decepções. Gosto de acreditar que esse desejo de isolamento seja
passageiro, que esse egoísmo seja uma das fases da maturidade, que depois de um
tempo passamos a ser mais seletivos e não nos surpreendemos mais tão
negativamente com as coisas, porque sabemos onde pisamos. E se for pra ter
alguma surpresa, será por algo bom, que é bem mais raro.
Lembrando que eu estou falando de uma faceta
específica do assunto. E que o egoísmo é um defeito, existindo pessoas que são
egoístas de nascença, e não têm um bom caráter, passando por cima dos outros
descaradamente, sem culpas. Também gostaria de entrar na parte boa do filme,
quando ele mostra nossa necessidade de contato com os outros e o bem que isso
pode nos fazer, entretanto, medo e egoísmo já são assuntos complexos o bastante
por hoje, quem sabe em um momento mais otimista eu fale do outro lado da
moeda.

